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Especialistas alertam que mudanças climáticas exigem adaptação rápida do setor para evitar impactos econômicos

As mudanças climáticas e seus impactos nos portos brasileiros foram o foco central de um debate promovido pelo Latam Export, durante o Sudeste Export, realizado nesta quarta-feira (2), no Rio de Janeiro (RJ). O diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) e vice-presidente do Instituto Brasil Logística (IBL), Jesualdo Silva, enfatizou a necessidade de uma compreensão coletiva do problema e a adoção de medidas preventivas para lidar com eventos climáticos extremos.

“Estamos testemunhando a magnitude e o alcance das consequências das mudanças climáticas, e é fundamental entender que essa é uma questão que afeta a todos”, destacou Silva. Ele ressaltou que, embora o setor portuário esteja preparado para diversas adversidades, ainda há a necessidade de mapeamentos mais detalhados para enfrentar condições climáticas extremas.

Silva destacou três pilares essenciais para a adaptação do setor: sustentabilidade ambiental, regulação eficiente e investimentos em tecnologia. Segundo ele, é crucial fortalecer medidas preventivas, explorar oportunidades de descarbonização e fomentar a pesquisa científica.

Ele também mencionou os prejuízos causados por tragédias ambientais, como a ocorrida no Rio Grande do Sul, que, em 2024, resultou em perdas estimadas em US$ 300 bilhões. Para Silva, é necessário um esforço conjunto entre governos, empresas e sociedade na formulação de políticas que minimizem os impactos das mudanças climáticas. “Precisamos discutir e auxiliar o governo na criação de políticas. Essa é uma questão de sobrevivência”, afirmou.

O debate contou com a participação de Jacqueline Wendpap, presidente Instituto Praticagem do Brasil e conselheira suplente do IBL, Gilmara Temóteo, diretora-executiva da Associação Brasileira das Entidades Portuárias e Hidroviárias (ABEPH), e Tatiana Silva, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além dos desafios climáticos, o evento abordou questões como os impactos das crises globais na infraestrutura portuária e a utilização da inteligência artificial no setor.

Infraestrutura portuária e adaptação climática

A infraestrutura portuária enfrenta desafios crescentes para se adaptar às novas realidades climáticas e geopolíticas. Para garantir competitividade e sustentabilidade, é fundamental aprimorar não apenas as operações, mas também revisar os modelos contratuais das concessões portuárias em vigor no Brasil. Essa necessidade foi destacada durante o primeiro dia do fórum Latam Export.

Casemiro Tércio Carvalho, sócio da 4Infra, alertou que muitos contratos de arrendamento portuário não contemplam a necessidade de adaptação para desastres naturais decorrentes das mudanças climáticas. “Há diversos leilões em andamento, mas nenhum deles prevê o SPS (shore power system) ou a eletrificação completa dos terminais. É preciso avançar desde o início”, destacou Carvalho.

O shore power system (SPS) permite que navios atracados se conectem à rede elétrica terrestre, reduzindo as emissões de carbono. Carvalho sugeriu que o governo reequilibre os contratos de arrendamento, incluindo a exigência do SPS. Ele também propôs um estudo piloto para a implementação do sistema em um terminal modelo, criando uma base para expansão a outras regiões do país. “O custo variaria entre R$ 4 e R$ 10 milhões, podendo ser incorporado como um kit de reequilíbrio automático nos contratos”, explicou.

Para ele, é essencial que o governo facilite a adoção de mecanismos que promovam a adaptação climática e melhorem a estruturação dos contratos portuários. “Diversas associações e fóruns estão pressionando o governo para incluir esses elementos na pauta e revisar os contratos”, ressaltou.

Impactos geopolíticos na infraestrutura

Os conflitos globais também afetam diretamente a infraestrutura e a logística portuária. Casemiro Tércio Carvalho alertou sobre os reflexos das guerras na economia internacional. “Atualmente, há mais de 200 conflitos armados no mundo. Mesmo que muitos sejam localizados, seus impactos alcançam a infraestrutura global”, afirmou.

A guerra na Ucrânia, por exemplo, afetou o mercado de gás na Europa e gerou instabilidade no transporte de mercadorias. “Em 2024, o número de omissões e atrasos nos serviços de contêineres aumentou 68%, impactando diretamente a costa leste sul-americana”, destacou.

Esses atrasos afetam toda a cadeia logística. Carvalho citou Petrolina, polo de produção de frutas para exportação, que tem enfrentado dificuldades devido à falta de previsibilidade no transporte marítimo. “A perda de escala e previsibilidade nos serviços internacionais exige que os terminais ampliem sua capacidade para lidar com picos operacionais”, explicou.

Raquel Kibrit, diretora executiva da International Association of Port Development, reforçou a necessidade de o Brasil se preparar para as incertezas futuras. “Não podemos ignorar essa realidade. Precisamos agir e tomar medidas preventivas”, alertou.

Ela destacou que, embora a América Latina raramente seja a origem das crises globais, a região sente profundamente seus efeitos. “Temos uma cultura de tolerância ao risco. Frequentemente, apenas reagimos aos problemas em vez de nos anteciparmos. Precisamos mudar essa mentalidade, buscando formas de nos proteger e, sempre que possível, aproveitar oportunidades no novo cenário global”, concluiu.

Confira aqui a notícia na TV BE News.

Fontes: BE News e LinkedIn da ABTP – Associação Brasileira dos Terminais Portuários.